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Material e Imaterial.

por MCN, em 07.04.10
Material e imaterial.

Continuação


Pedro Manuel Cardoso:

Caro Manuel de Castro Nunes, na próxima semana iniciarei a colaboração num ‘grupo de trabalho’ que tentará implementar um projecto de prevenção da violência nas Escolas. A antropologia será chamada a dar o seu contributo, através da lição que recebeu do legado dos que melhor souberam lidar com ela no passado. Afastar-me-ei até Agosto desta polémica sobre o ‘museu dos Jerónimos’. Quando regressar talvez me tenha enganado, e já haja uma solução, a bem de Portugal e do seu Património. É o que mais desejo. Contribui como pude para mostrar que há outras soluções e alternativas. É necessário que a política museológica e patrimonial esteja aberta a aceitar novas perspectivas e novos contributos. Mas é também necessário que os protagonistas e responsáveis que permanecem há anos nos ‘museus’ também o estejam. Que é um erro reduzir o programa de patrimonização da «ocupação humana e da vida no território a que chamamos hoje Portugal» à questão apenas dos ‘museus’, e muito menos à do ‘museu de arqueologia dos Jerónimos’.

Está na hora de abalar.

Sobre a questão dos arquétipos, talvez não tenhamos avançado muito mais do que avançaram os que estiveram entre 10 e 13 de Outubro de 1975 na Abadia de Royaumont. Massimo Piatelli-Palmarini relata esse admirável encontro entre Jean Piaget e Noam Chomsky (em português há a tradução das Edições 70, “Teorias da Linguagem, Teorias da Aprendizagem”, Porto, 1987) que transpõe a questão dos arquétipos para o impasse entre Genética e Cultura, que, como muito bem diz é “um nó a desatar”. Estiveram nesse debate muitos nomes importantes do saber do nosso tempo (G. Bateson, J.-P. Changeux, A. Danchin, J. Fodor, M. Godelier, B. Inhelder, F. Jacob, J. Mehler, J. Monod, J. Petitot, D. Premack, H. Putnam, R. Thom, D, Sperber, e outros). Nessa altura sentíamos os campos extremados, e esses dois domínios como fortalezas inexpugnáveis, obrigando-nos a ficar ou de um lado ou do outro da muralha. Razão pela qual Massimo Piatelli-Palmarini pôs na epígrafe a afirmação de Jacques Monod proferida em 1970: “Ao colocar a vasta questão: o que faz o homem ser homem? Verifico que há a sua Cultura, por um lado, e o seu Genoma por outro, é claro. Mas quais são os limites genéticos da Cultura? Qual é o seu bloco genético? Não sabemos nada sobre isso. E é pena, porque este é o problema mais apaixonante, o mais fundamental que há.”. Todavia, embora seja ainda um nó a desatar, houve avanços. Avanços que tornaram a inexpugnabilidade mais permeável. A ‘caixa de Pandora’ foi aberta por muitos, que agora não seria oportuno referir. Mas um desses responsáveis, que é crucial para o estudo da Museologia e do Património, e que já referi várias vezes, é sem dúvida Eric Kandel com o seu trabalho sobre a Memória. Ora, sobre os arquétipos Ernst Mayr lembra-nos que não viemos ao mundo como uma tábua rasa, viemos com um “programa fechado” que se foi gradualmente abrindo, e que está ainda muito mais fechado do que seria o nosso desejo. Os avanços da actualidade - depois do esforço dos ‘seis magníficos evolucionistas’ (Lamark, Darwin, Haeckel, T.H. Huxley, de Vries e T.H. Morgan) - mostram que em Homo há sempre uma ‘codificação bio-socio-cultural’ que se interpõe entre a Genética e a Cultura na qual é possível interferir. Ou seja, que os arquétipos podem ser modificados pela “agência” do sujeito humano. Mesmo que ainda só estejamos na infância dessa interferência.

Obrigado, Manuel de Castro Nunes.

Um abraço.


Pedro Manuel Cardoso


Manuel de Castro Nunes:

Prosseguindo uma troca de ideias.


Creia que lamento, Caro Pedro Manuel Borges, com toda a sinceridade, ver suspensa assim uma troca de ideias que, estou de acordo consigo, não podendo todavia reverter a dissincronia da acção e intervenção que se prepara para breve, qualquer que venha a ser a sua orientação, permitiria, pelo menos, avaliar, a priori ou a posteriori, as perversas consequências da acção que não aguarda os resultados de reflexões serenas.
E admito que se tivesse extenuado de andar assim, como ao lado de cego, passo a passo, mas não me restava alternativa, na diligente vontade de descodificar a sua mensagem. E também tenho a certeza, porque também o conheço, de que o itinerário de reflexão a que se reporta deveria já ter inundado o pensamento que suporta e deve preceder a intervenção museológica e museográfica. Estamos aqui em convergência incondicional.
Teríamos que procurar convergência acerca de quais os dados consolidados dessa reflexão estão habilitados para uma transferência inequívoca para o domínio da intervenção, mas, sobretudo, que implicações ideológicas subjazem a muitos deles. Deve ter compreendido que foi por essa razão que eu optei por fazer o itinerário passo a passo.
E por isso, porque não estou cativo do tempo, espero retomar este diálogo, quando lhe for oportuno.
Nada me resta pois senão enunciar-lhe, para podermos ordenar os tópicos se for o caso de prosseguir, as questões aonde pretendia centrar, passo a passo, a minha e a sua atenção.
Vou citá-lo:

''Sobre a questão dos arquétipos, talvez não tenhamos avançado muito mais do que avançaram os que estiveram entre 10 e 13 de Outubro de 1975 na Abadia de Royaumont. Massimo Piatelli-Palmarini relata esse admirável encontro entre Jean Piaget e Noam Chomsky (em português há a tradução das Edições 70, “Teorias da Linguagem, Teorias da Aprendizagem”, Porto, 1987) que transpõe a questão dos arquétipos para o impasse entre Genética e Cultura, que, como muito bem diz é “um nó a desatar”. Estiveram nesse debate muitos nomes importantes do saber do nosso tempo (G. Bateson, J.-P. Changeux, A. Danchin, J. Fodor, M. Godelier, B. Inhelder, F. Jacob, J. Mehler, J. Monod, J. Petitot, D. Premack, H. Putnam, R. Thom, D, Sperber, e outros). Nessa altura sentíamos os campos extremados, e esses dois domínios como fortalezas inexpugnáveis, obrigando-nos a ficar ou de um lado ou do outro da muralha. Razão pela qual Massimo Piatelli-Palmarini pôs na epígrafe a afirmação de Jacques Monod proferida em 1970: “Ao colocar a vasta questão: o que faz o homem ser homem? Verifico que há a sua Cultura, por um lado, e o seu Genoma por outro, é claro. Mas quais são os limites genéticos da Cultura? Qual é o seu bloco genético? Não sabemos nada sobre isso. E é pena, porque este é o problema mais apaixonante, o mais fundamental que há.”. Todavia, embora seja ainda um nó a desatar, houve avanços. Avanços que tornaram a inexpugnabilidade mais permeável. A ‘caixa de Pandora’ foi aberta por muitos, que agora não seria oportuno referir. Mas um desses responsáveis, que é crucial para o estudo da Museologia e do Património, e que já referi várias vezes, é sem dúvida Eric Kandel com o seu trabalho sobre a Memória. Ora, sobre os arquétipos Ernst Mayr lembra-nos que não viemos ao mundo como uma tábua rasa, viemos com um “programa fechado” que se foi gradualmente abrindo, e que está ainda muito mais fechado do que seria o nosso desejo. Os avanços da actualidade - depois do esforço dos ‘seis magníficos evolucionistas’ (Lamark, Darwin, Haeckel, T.H. Huxley, de Vries e T.H. Morgan) - mostram que em Homo há sempre uma ‘codificação bio-socio-cultural’ que se interpõe entre a Genética e a Cultura na qual é possível interferir. Ou seja, que os arquétipos podem ser modificados pela “agência” do sujeito humano. Mesmo que ainda só estejamos na infância dessa interferência.''

Ora, este nó de difícil desatadura, onde se cruza a genética e a cultura, é propriamente, do ponto de vista ideológico, o núcleo onde se vão cruzar todas as ambiguidades e também todos os riscos. Sobretudo quando damos o passo em frente, para o abismo porventura, quando anunciamos de seguida que os arquétipos, que nem sabemos bem ainda o que são, como bem diz, nem se são genéticos ou culturais, mesmo que sejam matrizes, aqui opera já o Caro Amigo precipitadamente a cisão entre o material e o imaterial, podem ser modificados pela agência do sujeito humano. Um passo no abismo, que não cabe no figurino do discurso. Parece-me, parece-me, sublinho, que nos estamos a colocar no patamar ético e deontológico dos problemas por resolver no que concerne à manipulação genética. Só que agora acrescida da cultural, porque não sabemos onde se cruzam. Quais são os limites genéticos da Cultura? Da ideologia, insistiria eu, que é cultura também.
Será que a circunstância de classe dos sujeitos, que reverte em cultura também, estaria já impressa na matriz genética?
Como vê, há caminhos com mais escolhos do que aqueles que vemos ao longe.
Ora, vou citá-lo de novo:

''A gestualidade é apenas uma parte das quatro partes do ‘objecto patrimonial’. Por exemplo no objecto patrimonial ‘copo’, o ‘modo de beber’ ou o ‘modo de o pegar’ são uma e a mesma coisa patrimonial - seja no Neolítico ou na contemporaneidade, seja no culto ou em ambiente profano. Que obviamente assumiram ‘formas’ (isto é, ‘documentos-dados’) diferentes consoante o tempo histórico. Assim o é também para os fonemas que o anunciam na fala; e para os ícones que o etiquetam, a quem F. Saussure (ou G. Gabelentz, 1891) chamou de “significantes”. Todas estas quatro partes são «uma dinâmica una da realidade constituinte do ‘objecto patrimonial’». O canto, a música, a desgarrada, o assobio, o pregão, a serenata pertencerão á ‘oralidade’. A quadra e a décima se forem registos alfanuméricos, ou se forem sinais ou escritas e não sons, pertencerão à ‘iconicidade’. Os modos de utilização dos músculos faciais á volta do zigomático, e dos outros no fazer dessa ‘oralidade’ pertencerão outra vez à ‘gestualidade’. Os ‘suportes’ onde tudo isto for registado pertencerão à parte da ‘materialidade’''

Terá que admitir que é difícil de admitir, mesmo firmados em muito pensamento consagrado já emitido, que copo, modo de pegar e modo de beber, para ordenar sincronicamente, sejam uma mesma coisa patrimonial. É também difícil de admitir a redundância da escrita, mau grado a noção de caligrafia, no estrato da iconicidade. E da oralidade no estrato da gestualidade, sem operar diferenciais distintivos. E que os suportes onde tudo ficou registado pertence à parte da materialidade, mesmo entre aspas.
E é difícil de admitir na coerência interna do discurso. Seja, o discurso contem em si o genoma, ou o vírus da sua negação.
E isso é razão para abandonar esta perspectiva de aprofundamento? Claro que não, Um estímulo para prosseguir com ela.
E é por isso que o terei que citar de novo:

''Que é um erro reduzir o programa de patrimonização da «ocupação humana e da vida no território a que chamamos hoje Portugal» à questão apenas dos ‘museus’, e muito menos à do ‘museu de arqueologia dos Jerónimos’''

Para concluir que, neste pé do problema, é um erro reduzir (…) à questão da negação dos museus e muito menos à do MNA.
É um passo de gigante.
Espero sinceramente que possamos voltar a dialogar e que, desanuviados destes equívocos, possamos entrar em convergência. Num tempo já que não será o da acção.

Um abraço.

Manuel

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publicado às 18:47

Continuação



Pedro Manuel Cardoso:

Caro Manuel de Castro Nunes prossigamos então, com todo o prazer e agradecimento.

Um agradecimento extensivo também à Lista Museum e ao Prof. José d’ Encarnação. Jamais uma boa divergência foi inimiga de uma boa convergência.
O Museu da Gestualidade não nasceu da intenção de cobrir tudo o resto, nem teve uma pretensão hegemónica ou sequer aglutinadora. Em 1986, tal como agora, trabalhava em antropologia com a minha colega Maria Isabel Tristany. Trabalhávamos na investigação da ‘origem da linguagem humana’. Foi aí que encontrámos a ‘gestualidade’. E decidimos fundar o ‘museu’ como plataforma de investigação, sistematização e recolha dos dados que obtínhamos nessa pesquisa. Foi deste modo singelo que tudo começou. Curiosamente, essa intuição acabou na actualidade por adquirir uma importância maior do que aquela que alguma vez esperaríamos. Tentarei resumir essa revalorização actual da gestualidade.
Durante muito tempo, em Ciências Sociais e Humanas (antropologia, sociologia, psicologia), prevaleceu a tese de que a Linguagem teria sido uma invenção humana - tal como a “técnica”, a arte ou a escrita. A Linguagem teria sido um “produto social”, cuja origem deveria ser procurada na lógica e nos fundamentos da organização social (Lévi-Strauss, 1970), e não nas capacidades de um cérebro individual (N. Chomsky). Esta tese culturalista foi mais tarde actualizada por William Noble e Lain Davidson (1996). Todavia Steven Pinker, dando continuidade à perspectiva inatista de N. Chomsky, haveria de apresentar em 1994 uma tese contra-intuitiva na qual a linguagem teria tido origem numa capacidade “biologicamente programada”. Este impasse entre as teses culturalistas e as teses inatistas manteve-se sem solução até à actualidade.
Mais recentemente, Merlim Donald proporia a hipótese de uma origem mimética da linguagem (1997) que se teria desenvolvido desde Australopitecus. Michael C. Corballis da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), em 2001, proporia a tese de uma origem gestual da linguagem, que teria sido já utilizada em Homo erectus. O linguista Derek Bickertom (1997) proporia, também desde Homo erectus, a tese da existência de uma espécie de protolinguagem que teria sido a fôrma que teria moldado a linguagem actual. Terrence Deacon (1997) proporia uma tese intermédia, segundo a qual algures durante o processo de hominização teria ocorrido um processo de co-evolução da linguagem e do cérebro. Na actualidade Laura Petitto (2001) e os seus colegas da Universidade Mcgill, em Montreal (Canadá) mostraram por “imagens cerebrais”, utilizando as técnicas PET (tomografia por emissão de positrões), que as zonas que se acreditava estarem apenas especializadas no processamento auditivo da linguagem (sons) também se activavam quando os surdos-mudos comunicavam por ‘gestos’. Então, duas interpretações passaram a poder ser deduzidas destes resultados: - Ou as capacidades de processamento da linguagem eram independentes do canal sensorial, confirmando no cérebro uma estrutura inata propriamente linguística. Ou, ao invés, o cérebro seria especializado no “tratamento de imagens complexas”, quer fossem construídas através de sons ou através de gestos.
Como se vê a gestualidade adquiriu hoje uma importância que antes dos anos 1980, e mesmo dos anos 1990, não tinha. Mas quem a investigava como nós, e tantos outros, estava mais preparado para a intuir.
A questão na actualidade coloca-se do seguinte modo: - A confirmarem-se estes dados, não apenas a “linguagem verbal” mas também a “linguagem não-verbal” podem estar ambas implicadas no processo de “dupla articulação” e de “representação simbólica”, responsáveis pelo processo global de comunicação humana. Este resultado (hipótese) foi decisivo para a revalorização da importância das investigações em gestualidade. Porque passaram a faltar investigações que pudessem indicar de que modo esse entre-cruzamento se realizaria.
No caso da investigação em antropologia que prosseguimos com Maria Isabel Tristany partimos da hipótese de que o cérebro necessitará de fragmentos (‘formas’) que permitam uma representação (‘imagem’), para depois poder associá-la a um ‘sentido/significado aprendido’ (socialmente pertinente). Ou seja, o nosso contributo advém de investigar, em Portugal, em amostras e contextos interactivos bem delimitados, e em confronto com as variáveis género e idade, quais e como são as ‘configurações gestuais’ escolhidas socialmente para se tornarem “representações” e “signos” (“unidades elementares”) constitutivos do processo de comunicação cultural.
Foi assim que o Museu da Gestualidade nasceu. Portanto ainda não ligado ao aprofundamento da questão da Museologia e do Património que fizemos posteriormente.
Caro Manuel de Castro Nunes espero ter respondido, em parte, à questão que me colocou.
Antes de regressar novamente à Museologia e ao Património permitam-me um comentário. Quando os responsáveis e as entidades pelo Património dito “intangível” ou “imaterial” se propõem, por exemplo, fazer o seu ‘inventário’ devem esforçar-se por possuírem as habilitações técnicas e científicas adequadas. Porque são áreas muito desenvolvidas a nível mundial, com que a museologia não está familiarizada. Sugiro que façam uma aproximação, ou mesmo estabeleçam uma parceria, com o Programa Europeu “Origins of Man, Language and languages”, e com a “International Society for Gesture Studies” fundada em 2002.
Mas regressemos novamente ao Património.
A gestualidade é apenas uma parte das quatro partes do ‘objecto patrimonial’. Por exemplo no objecto patrimonial ‘copo’, o ‘modo de beber’ ou o ‘modo de o pegar’ são uma e a mesma coisa patrimonial - seja no Neolítico ou na contemporaneidade, seja no culto ou em ambiente profano. Que obviamente assumiram ‘formas’ (isto é, ‘documentos-dados’) diferentes consoante o tempo histórico. Assim o é também para os fonemas que o anunciam na fala; e para os ícones que o etiquetam, a quem F. Saussure (ou G. Gabelentz, 1891) chamou de “significantes”. Todas estas quatro partes são «uma dinâmica una da realidade constituinte do ‘objecto patrimonial’».
O canto, a música, a desgarrada, o assobio, o pregão, a serenata pertencerão á ‘oralidade’. A quadra e a décima se forem registos alfanuméricos, ou se forem sinais ou escritas e não sons, pertencerão à ‘iconicidade’. Os modos de utilização dos músculos faciais á volta do zigomático, e dos outros no fazer dessa ‘oralidade’ pertencerão outra vez à ‘gestualidade’. Os ‘suportes’ onde tudo isto for registado pertencerão à parte da ‘materialidade’.
Antes de prosseguir que fique esclarecido para quem nos ‘vê’: Não consigo ir muito mais além daquilo que sou capaz. Que é muito pouco. Mas aqui o que fazemos é um diálogo e uma troca. E, na humildade disso, provavelmente não há «respostas». Apenas o fluir que Manuel de Castro Nunes mencionou na epígrafe desta mensagem. Um percurso que não tem fim, nem metas, nem certezas absolutas.
Assim mais leve, e como hipótese acerca da gestualidade e do Património em geral, diria que a deficiência está em nós. Não somos capazes senão de dividir para perceber/compreender. Mas essa limitação não nos impede de percebermos que fragmentámos. Portanto não é impeditiva de definirmos como ‘modelo’ a Unidade. Apesar de não a conseguirmos alcançar.
O problema são os nossos limites perante a evidência duma realidade patrimonial que se nos dá em quatro partes. Mas essa é também a beleza do nosso desafio de viver, perante uma consciência que nos dá à frente aquilo que o metabolismo perceptivo e funcional não é capaz.
É por isso incompreensível a guerra que se está a fazer acerca da mudança do Museu Nacional de Arqueologia. O legado de José Leite de Vasconcelos e a gestão do Património Português são reduzidos à mesquinha questão do(s) ‘museu’.
A falta de consistência nesse debate irá ser aproveitada, se bem antevejo, pelos políticos com letra pequena. Porque os há com letra grande. A Política, para mim, é nobre. E aparecerão também, se bem adivinho, os políticos disfarçados de museólogos (arqueólogos e demais especialidades aparentemente interessadas no Património). Não faltará muito para o debate se cingir às eternas duas facções binárias características do obscurantismo: [‘saio’ ou ‘não saio’]; [é ‘laranja’ ou ‘cor-de-rosa’]; [é ‘vermelho’ ou ‘azul’]?


Uma tristeza… enfim.


Pedro Manuel Cardoso


(Museu da Gestualidade)


Manuel de Castro Nunes:

Estou também convencido de que, neste itinerário, passo a passo, remataremos em convergência, nem que seja na conclusão de que, mau grado os importantes passos na reflexão e na pesquisa sobre a matéria fundamental, a origem, mas também a sede da linguagem, vamos polarizá-la, por razões operacionais no passo em que estamos, na fórmula Strauss versus Chomsky, nos vai levar ao nó que jamais, ou por enquanto não conseguiremos desatar.

E agradeço também à assembleia e ao Professor José d’Encarnação a paciência para nos permitirem dialogar aqui. Tenho a certeza de que a razão foi a de reconhecerem à matéria inequívoca relevância para ser aprofundada.
E creia em que estou sinceramente convencido de que a abordagem, assim em profundidade, das questões que levanta, são cruciais para que se desvaneça a ideia de que o assunto da rearrumação museológica e museográfica é meramente uma questão de circunstância política, quase uma birra, com cores à mistura.
E, uma vez que o Caro Amigo traz como lastro um intenso e extenso itinerário de consolidação das suas ideias e eu me venho agora intrometer nelas, vamos pressupor que do ponto zero, e tenho que o acompanhar passo a passo, só posso atirar-lhe escolhos para o caminho, para que, ao superá-los, me indique a direcção.
Passando por cima da descrição do itinerário de reflexão a montante, bastante detalhada por sinal, mas que ainda retomarei para aferir e comentar algumas referências, poderíamos concluir então que regressamos, todavia ancorados em novos suportes de investigação, à doutrina socrática dos arquétipos. Está de acordo?
Bem. E como já tomei por hábito dar dois passos de cada vez, para podermos progredir com mais celeridade, aproveito para lhe colocar outra questão. Talvez eu esteja cativo de qualquer preconceito, mas, observando genericamente a operação de análise desfragmentatória que opera para aprofundar a percepção radical de como o artefacto, utilizando a sua metáfora, se nos pode apresentar na sua multiplicidade, porque razão insiste depois em regenerá-lo congregado, negando a sua cisão, que já operou.
A mim parece-me, embora admita que possa estar enganado, que está a cair numa cilada. Porque o artefacto, assim decomposto, não caberia na categoria nem no género dos arquétipos socráticos. Por isso após o dividir tem que formular o cúmulo.
E só posso agradecer-lhe a sua disponibilidade. Porque o repto começou por seu e agora sou eu quem quer esvaziar o poço.
Bem… e, como diz, por vezes as divergências só parecem. Podem virar-se do avesso.
Será pois um prazer, diria necessidade, prosseguir. Se tiver a paciência para me aturar.


Um abraço.


Manuel de Castro Nunes

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publicado às 08:25

Debate em Museum, forum, com Pedro Manuel Cardoso

Material e Imaterial: A estúpida ruptura.

Mais uma vez o António Nabais foi assertivo. Disse:

“É necessário que se explique a esses senhores que dizem que andam a fazer o inquérito do património imaterial o que é o património imaterial. Andam por aí a espalhar aldrabices e não fazem nada para preservar o património imaterial. Basta de tanta incompetência institucionalizada!” (António Nabais, Lista Museum, mensagem n.º 03658, de 25/03/2010 – 16:09).

Não estou de acordo com António Nabais quando designa de “aldrabices” e “incompetência”. Nessa parte não estou de acordo. Não é essa a questão.
Mas quem dera que houvesse mais desta assertividade. Era sinal que não se receava o Debate. E talvez contribuísse para haver um equilíbrio melhor entre ‘debate’ e ‘informações’.
Já me tinha sublevado contra esta estúpida ruptura numa mensagem anterior. Mas entendamo-nos. Não são as Pessoas que são estúpidas, é o argumento e o raciocínio que são utilizados para justificar essa ruptura no Património. Nessa mensagem tinha feito votos para que:

“…Como referi anteriormente, nesta Museum Lista, o Património Pleno exige uma Museologia para sua condutora. Se o fosse, o Património seria gerido na simultaneidade da materialidade, da oralidade, da gestualidade e da iconicidade. Que deve ser o conceito operatório de objecto patrimonial com que se deve trabalhar. E não ouvirmos e assistirmos às recentes ameaças de uma nova e estúpida ruptura, agora entre imaterial e material.” (Pedro Manuel Cardoso, Lista Museum, mensagem n.º 03095, de 01/11/2009 – 00:46:13)

De facto, é um erro científico e metodológico afirmar que existe um novo tipo de Património dito “imaterial” ou “intangível”. Só o pode afirmar quem não está atento à Museologia.
Nós próprios, muito antes desta moda «imaterial-intangível», fundámos um Museu da Gestualidade. Que possui milhares de ‘documentos-dados’ sobre a realidade gestual portuguesa e humana; e tem relações com colegas e universidades em vários sítios do mundo. E recusámo-nos sempre a chamar este Museu de “imaterial” ou “intangível”. Porque se o fizéssemos estávamos a cometer um erro científico e metodológico. Estávamos a infringir a Museologia.
Na mensagem que enviámos sobre a “Instalação dos Museu Nacional de Arqueologia e Museu Nacional de Etnologia em Coimbra” explicámos um pouco o porquê dessa lacuna e desse erro. Dissemos:

“No nosso trabalho de investigação, e nos contributos que já publicámos, mostrámos que a Museologia consegue gerir o Património separando nele três realidades e três instâncias. Consegue separar a responsabilidade pelo(s) ‘suporte’, pelo ‘documento-dado’ e pela ‘informação’; e consegue fazer perceber (tanto aos responsáveis políticos como aos que gerem os museus ou as coleções-objectos) que há uma diferença entre a instância relativa ao(s) ‘objecto-colecção’, ao ‘uso do património’ e ao ‘valor patrimonial’. Permite separar essas seis coisas. Isto é, permite que haja, como soluções disponíveis para gerir o Património, tantas soluções quantas a combinatória desses seis factores/variáveis o permitem.” (Pedro Manuel Cardoso, Lista Museum, mensagem n.º 03650, de 22/03/2010 – 23:10:54)

Talvez seja útil contribuirmos para este Debate com uma explicação mais didáctica. Peço, aos que insistem no “imaterial e intangível”, para passarem os olhos pelo seguinte exemplo, servindo-me de um extracto do trabalho que publicámos: -

“(…) O impacto do Desenvolvimento no Uso - isto é, no modo como se acede e manipula o Património - provocará uma segunda ruptura conceptual: entre ‘documento/dado’ e ‘informação’. O conceito de Património passará a incluir três partes. A ruptura anterior separou-o em duas partes: o ‘suporte’ e o ‘documento/dado’. O impacto do Desenvolvimento no Uso acrescentará as condições pelas quais essas duas partes se poderão constituir, ou não, em ‘informação’. Ou seja, o Património passará a ser igual a [‘suporte’ + ‘documento/dado’ + ‘informação’]. No ponto anterior, relativo ao impacto do Desenvolvimento na variável ‘Objecto’, vimos que, por exemplo uma «norma de conduta» ou um qualquer outro ‘documento-dado’ antes do aparecimento da escrita podiam ser transmitidos de geração para geração num suporte oral, fosse numa mnemónica ou numa retórica ritual; na Suméria podiam ficar registados num suporte de argila; a seguir passar para um papiro egípcio; ou para um papel impresso chinês; depois podiam passar para uma edição impressa de Gutenberg; na época seguinte serem registados num cartão perfurado; serem captados por uma fita magnética; depois por um Compact Disc; por um DVD ou um Blue-Ray; e no futuro por um ‘suporte’ quântico. Vimos assim que esse ‘documento/dado’ (que é a «norma de conduta») era independente de todos esses ‘suportes’ que se foram sucedendo na história humana. Agora, com o impacto do Desenvolvimento na variável Uso, verificaremos que, se o ‘documento-dado’ tivesse continuado a ficar sem acesso, guardado como um tesouro no fundo de um baú, dentro de uma vitrina ou no fundo de uma reserva, jamais alcançaria o estatuto de ‘informação’. Teria desaparecido da nossa memória, e pertenceria ao reino do esquecimento. Ou de outro modo dito, o efeito do Desenvolvimento no Uso fará perceber que a existência quer dos ‘suportes’ quer dos ‘documentos-dados’ não garante só por si o acesso ao conteúdo informativo do Património. Mas esta exigência de um maior acesso e uso do Património, na parte que diz respeito aos ‘suportes’ e aos ‘documentos-dados’, obrigou também à adopção de um «novo modelo de comunicação com essa parte material do Património». Que irá, como veremos, afectar o próprio Valor Patrimonial.” (Pedro Manuel Cardoso, “O Património perante o Desenvolvimento”, ULHT, Lisboa, 2010:228)

Repito. É um erro científico e metodológico afirmar que existe um novo tipo de Património dito “imaterial” ou “intangível”.
O Património é o mesmo.
O que mudou foi a parte do Património relativo ao ‘suporte’. As partes relativas ao ‘documento-dado’, à ‘informação’ e ao ‘valor patrimonial’ mantiveram-se. Portanto é apenas um caso de transferência de ‘suportes’, para a qual também já tínhamos chamado a atenção no “Índice de Avaliação do Trabalho Museal” que propusemos, e onde incluímos exactamente os “coeficientes de transmissibilidade” e de “restituição”.

Pedro Manuel Cardoso

(Museu da Gestualidade)


A nomenclatura em regime de cálculo diferencial

Serve esta para corresponder à solicitação e repto de Pedro Manuel Cardoso, fazendo apenas fluir o comentário e troca de ideias, sem qualquer pretensão de rematar a matéria, pelo contrário.
O aprofundamento da nomenclatura e do seu uso, seja em contexto especulativo ou de aplicação, é sem dúvida um indispensável instrumento de trabalho, do qual resultará o enriquecimento do raciocínio e da acção. No contexto específico da matéria que agora se aborda, a museologia, lança-nos para novas perspectivas na relação com os objectos, com os objectos da museologia, claro, suscitando novas e surpreendentes percepções e intervenções.
É inquestionável a formulação das seis variáveis propostas por Pedro Manuel Cardoso, mau grado puséssemos, a posteriori, formular mais algumas. Não compreendo porque razão essa conceptologia tem que partir da erradicação da conceptologia preliminar que opera a distinção entre o material e o imaterial. Não adiro, obviamente, ao conceito de intangível, porque tanto o material como o imaterial são tangíveis, em estratos de percepção variáveis.
Seja, fica em perda o primeiro factor de incidência exponencial. Tomando material como A e imaterial como B, partiríamos da base exponenciável (A x, +, -, : B) elevado a 6, ao seu quadrado, ao seu cubo, etc..
Em negar a natureza material ou imaterial de um objecto de património, ponderando mesmo a sua coincidência ou acumulação num mesmo objecto, não me parece residir enriquecimento algum, nem para a sua percepção radical, ou o mais possível, nem para o seu uso, ou para a forma como é operado para a fruição, falando no domínio mais estrito da museologia.
Por outro lado, passa-se por cima de uma questão também conceptual fundamental, que é a da duração e do seu registo. E compreendo que para um museólogo da gestualidade tal questão suscite problemáticas deveras complexas. Porque o gesto perdeu a sua materialidade quando se extinguiu, o que pode ser um instante. E se pode ficar registado num suporte material, um registo fotográfico, ou mesmo a memória, uma coisa foi o gesto, outra o material suporte do seu registo.
Como dizia, não pretendo concluir assim e aqui a reflexão sobre a matéria. Mas de que merece ser aprofundada, não tenho dúvidas.
Não sei se vou de encontro ao seu salutar desafio, Espero que sim.

Nota: não sou museólogo, apenas um ser pensante, ou talvez nem isso.

Manuel de Castro Nunes



Re Material e Imaterial – A nomenclatura em regime de cálculo diferencial


Sim. Seria estultícia pretender “rematar a matéria”. Estou plenamente de acordo com Manuel de Castro Nunes.
As variáveis em que decompus o Património ajudam o trabalho prático. Resultaram da indução mais do que da dedução. Para quem tem experiência no trabalho museal são muito mais do que meras reflexões. Ajudam a gerir o Património com mais eficiência. E permitem organizar melhor a cadeia de tarefas que compõem o ‘processo museológico ou de patrimonização’ - desde a ‘Preservação’, passando pela ‘Documentação’ até á ‘Comunicação’. Mas também ajudam a orientar melhor a política museal ou patrimonial.
Também estou de acordo quanto ao erro de desvalorizar a parte dita “material”. A ‘materialidade’, a ‘gestualidade’, a ‘oralidade’ e a ‘iconicidade’ são as substâncias de que o Património é feito. Deveriam possuir um estatuto de igualdade, na importância que merecem por quem tem a responsabilidade de gerir o Património. Portanto será errado opor umas às outras, ou desvalorizar umas em relação às outras. Mas basta fazer as contas aos recursos que são postos em cada uma destas partes para verificarmos a que merece mais preponderância, e a que é mais desprezada.
Mas sobre a ‘materialidade’ a questão também não é simples. Quase todos duvidam de que a ‘materialidade da Gioconda’, daquela que nos é apresentada hoje no Louvre, seja a mesma que a original. O mesmo aconteceu com os ‘objectos’ intervencionados pelo POC 2000-2006 pelo ex-Instituto de Conservação e Restauro. Os ‘objectos’ foram desmanchados, a sua materialidade foi substituída parcial ou totalmente, e depois foram reconstruídos, repintados, relacados e recozidos. E, apesar dessa ‘materialidade substituta’ ser o que temos da sua parte material, eles continuam a ter um valor patrimonial que consideramos suficiente relativamente ao ‘original’. A ‘materialidade’ não é a mesma. Houve a perda “diferencial” que Manuel de Castro Nunes refere. Mas isso não catastrofiza (no sentido de R. Thom) o valor documental e patrimonial.
A questão sobre a “duração e o registo” é para nós a mais interessante. Manuel de Castro Nunes afirmou com muita pertinência: “Porque o gesto perdeu a sua materialidade quando se extinguiu, o que pode ser um instante. E se pode ficar registado num suporte material, um registo fotográfico, ou mesmo a memória, uma coisa foi o gesto, outra o material suporte do seu registo.” (Manuel de Castro Nunes, Museum Lista, 29/03/2010). Até à descoberta da Estrutura do Valor Patrimonial (Pedro Manuel Cardoso, ULHT, 2010) essa extinção parecia ser uma inevitabilidade. Mas a partir do momento em que a investigação prova que existem valores patrimoniais codificados na mnése, feitos de uma informação a priori codificada em mapas mentais (ou “representações”), cujo suporte são as células de lugar no hipocampo, a questão muda de figura. Porque o estatuto do ‘suporte’, do ‘documento-dado’, da ‘informação’ passam a ser também metadados (tal como acontece no ADN). E os ‘museus’ deixam de ser o objecto da Museologia, assim como os hospitais não são o objecto da Medicina, ou as empresas não são o objecto da Economia. Foi isso que me permitiu oferecer uma história alternativa do Património e do percurso museal, com os mesmos dados que os autores construíram a ‘história tradicional’ que ainda vem nos manuais.
Este resultado traz consequências. Por exemplo, esta polémica á volta da re-instalação dos museus deixa de ter sentido para uma Museologia cujo objecto seja a «Gestão da Memória e do Património». Este contributo ajuda a separar o essencial do acessório. Façamos a seguinte pergunta: - Nos Jerónimos, e no espaço designado por Belém, está o quê? Dos valores patrimoniais em competição nesse mesmo território qual o que especifica mais a identidade de Portugal no confronto com os outros países? O que é que lá está que é Património, mas que os outros povos e países também têm? E o que é diferente e caracteriza de forma exclusiva Portugal? O que é que está lá que não é preciso trazer para lá? E o que é que não está lá, e era necessário trazer de outro lado para se fazer um melhor museu? Arqueologia, Descobrimentos, Coches-Transportes, CCB-Arte, Presidência do Regime Republicano…Turismo-Economia-Marca Portugal.
Ou seja, a decomposição nas variáveis que propusemos permite discernir melhor a escolha. E permite perceber de que valores patrimoniais estamos a falar quando falamos genericamente de Património.
A luta de Luís Raposo é o belo de uma luta. E isso também é um valor. Mas não tem nada a ver com um valor patrimonial no sentido da «Gestão da Memória e da Identidade». É uma disputa pessoal que a classe profissional dos arqueólogos corporiza. É a competição por um dos territórios mais ‘sagrados’ para a identidade patrimonial de Portugal.
As respostas àquelas perguntas que formulei seriam o caminho alternativo para uma solução em que essa «Gestão da Memória e da Identidade» não ficaria diminuída, e se sobreporia às questões pessoais, corporativas, políticas ou de ‘honra’.


Pedro Manuel Cardoso

Caro Pedro Manuel Cardoso, no essencial de acordo consigo, considerando que a reflexão encaminhada por esse itinerário que vai traçando nos obriga a repensar muita matéria.
Penso também, em convergência consigo, que, colocada neste estrato e patamar, a argumentação em torno do destino do MNA ganharia outra solidez.
Por esa razão, vou ler com mais detalhe a sua resposta e trocaremos de novo ideias.

Obrigado.

Manuel de Castro Nunes
 
 
A cisão entre ‘Museu Nacional de Arqueologia’ e ‘Museu Nacional de Etnologia’: O esquecimento do legado de José Leite de Vasconcelos.

Nas homenagens que sucessivamente são feitas a José Leite de Vasconcelos verificamos, invariavelmente, um consenso sobre o que representou para a Cultura Portuguesa. Escrevem quase sempre, com justeza, três palavras para o definir: “Filólogo – Arqueólogo – Etnógrafo”.
Esse contínuo daquilo que é específico do ser-humano, neste caso da particularidade disso referente a “Português”, foi uma visão traída pela modernidade de tantas decisões depois dele.
Compreendemos.
Compreendemos, agora distanciados no tempo, que foi, em primeiro lugar, por causa do horror emocional do pós-guerra. Que foi por causa disso que houve um coro de unanimidade na menorização do ‘evolucionismo’ face ao todo-poderoso ‘relativismo/sociologismo’. Desde as polémicas com Franz Boas até às declarações solenes nas “Nações Unidas” por Lévi-Strauss. Depois foi a adesão cega à “Cultura Material”, como prova a priori desse relativismo cultural. Decretaram logo aí o dia-de-finados da «visão contínua e integrada do ser-humano e da sociedade». Foi o tempo de copiar, sobretudo de França. Foi o tempo da exaltação do “Museu de Artes e Ofícios”, da vinda para Portugal de tantos jovens estrangeirados que cheiraram o “Maio de 68”, essa espécie de revolução francesa moderna contra a moralidade do “antigamente”. Foi o tempo de adoptar cegamente a filosofia dos Analles, de A. Leroi-Gourhan e de M. Mauss. Foi o tempo do empenhamento pela imposição da Cultura dita “Popular”.
A Ciência foi dominada pela doutrina do ‘relativismo cultural’, como o havia sido no tempo ignóbil do ‘racismo linear e gradual’.
Uma coisa são os dados, os vestígios e os testemunhos que se obtêm pelo trabalho científico. Outra coisa é o uso político e doutrinário que deles se fazem. Sempre foi assim, e sempre será.
Foram, entre outras, aquelas motivações que justificaram a precipitada cisão entre a “Diferença” (relativismo, sociologismo) e a “Evolução” (evolucionismo, antropologismo). Logo apareceram os mesmos arautos barulhentos de sempre, a decretarem dois mundos diferentes, dois reinos inconciliáveis, duas pretensas epistemologias. Foi essa cegueira ideológica, provocada por aquelas duas ideologias, que fez romper a noção de que «a diferença e a evolução não se opõem quando queremos compreender e patrimonizar o ser-humano». O legado de José Leite de Vasconcelos foi uma das vítimas. Logo foram à pressa cindir a Arqueologia, da Etnologia e da Língua. Fizeram ‘museus’ para esses bocados que partiram. Que são o resultado medíocre do que vemos hoje.
É uma afronta, talvez mesmo um ultraje, virem agora, para dirimirem os conflitos do mal que fizeram, jurar em nome do legado de quem tinha a visão de que a «gestão da memória e do património referente ao ser-humano» se fazia da interdependência entre a Língua, a Arqueologia e a Etnologia.
Volto ao que disse antes, sobre a estúpida ruptura entre “material” e “imaterial”. A diferença entre esses ‘museus’ ou instâncias gere-se separando com clareza o que é ‘suporte’ do que é ‘documento-dado’, do que é ‘informação’. E gerindo museologicamente, com coerência e sistematicidade, o que é ‘materialidade’, ‘iconicidade’, ‘gestualidade’ e ‘oralidade’. Coimbra reuniria a maior dos ‘suportes móveis da materialidade’ desse contínuo arquelógico-etnológico; Lisboa e Porto exporiam a maior parte dos ‘suportes icónicos’ desse património e dessa memória do ‘contínuo humano português’; os locais etno-arqueológicos tão ricos que Portugal tem, em várias Terras, exporiam em rede os ‘suportes imóveis’.
Haverá coragem para esta política museológica e patrimonial? O legado de José Leite de Vasconcelos não nos devia merecer melhor discernimento?
Tanto barulho e tanta algazarra… enquanto o Património e a Memória de Portugal esperam.

Pedro Manuel Cardoso

(Museu da Gestualidade)



Prosseguindo uma troca de ideias, passo a passo.

Caro Pedro Manuel Cardoso, estamos a trocar ideias em tempo real, seja, na crista da onda ou na apropriada circunstância, no momento do cúmulo da ambiguidade, quando, sob a capa de uma renovação do programa museográfico e do pensamento museológico, constatamos a proliferação de projectos para novos museus, os velhos moribundos.
Importante reflectir, sim, agora, por detrás do ruído de circunstância. Passo a passo.
Não posso, por razões de espaço e paciência da audiência, comentar os aspectos de juízo mais ideológicos da sua introdução, que dariam muita matéria, ficará para outro estádio do diálogo, ou do colóquio quando outros vierem reunir-se na cavaqueira.
Retomemos o tema da cisão entre material e imaterial, agora enriquecido com a cisão do Homem, do Homem produtor de pensamento cultural, falando de Leite de Vasconcelos, obviamente, mas de outros também.
E para irmos passo a passo, tomando como mote a sua reflexão sobre a congregação do todo diferencial numa abordagem centrípeta e aglutinadora, sem cisões, gostaria que comentasse uma questão. Porquê então um museu da gestualidade e só? Ou pretenderia a museologia da gestualidade assumir-se como o paradigma de toda a museografia e museologia, reunindo tudo num só tópico, que poderia ser os Jerónimos? Para onde convergiria a etnografia, a arqueologia, porque não a arquivística (?), libertava-se ainda a Torre do Tombo? Giacometi, Lopes Graça, etc.
E, para partirmos de bases sólidas, talvez não compreenda porque o questiono já sobre esta matéria, o canto e a música, a quadra, a décima e a desgarrada são gestualidade? Independentemente do registo de que foram alvo? O assobio, o pregão, a serenata? Tudo isso poderia congregar-se nos Jerónimos ou na Cordoaria? Sem fracturas nem cisões?
O Caro Amigo está a colocar a questão no patamar certo. A reflexão antes da acção. E eu sinto-me sinceramente motivado para o acompanhar, aprendendo a reflectir. Passo a passo. Serenamente, ausentes do ruído, ou com ele ao lado.

Manuel de Castro Nunes

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publicado às 19:55