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Arqueologia
Desconstruir para construir. Uma autópsia.




Prólogo


Perdoem-me que, previamente, retome aqui um tema recalcitrante em todas as minhas cogitações epistemológicas, quando abordo o tema do paradigma da modernidade no itinerário do conhecimento humano. Tendo como certo que a minha mira está orientada para a história e, no seu âmbito, a arqueologia. A arqueologia, para mim, não consegue evadir-se do âmbito da história, por mais que o conhecimento se vá fragmentando e as suas regiões, ou nações, anseiem pela autonomia.(1)
E retomo então a medicina. Consciente de que a retomo agora num novo e mais lúcido patamar, porque superei aquele de que partira, cerca de vinte anos atrás.
Porque nesse primeiro patamar conseguira meramente operar o registo de que a disputa entre a medicina e a cirurgia, quer como disciplinas, quer como ordens corporativas, configurava, como metáfora, o nó axial dos contenciosos envolventes da ruptura da modernidade, que residia na autonomia e antinomia de dois patamares da laboração do conhecimento, a teoria e a prática. E que a prática passara a incorporar o domínio do juízo sobre a legitimidade dos procedimentos que suportavam a progressão no itinerário do conhecimento. A medicina tornara-se metaforicamente no paradigma do experimentalismo, na sua matriz.(2)
A recalcitrante disputa entre a modernidade e a tradição cristalizou, durante mais de três séculos, na disputa entre médicos e cirurgiões e entre estes e os oficiais tradicionais das práticas operativas, sangradores, barbeiros, meios-cirurgiões, etc.
Sucessivamente, a medicina, que soçobrava face ao assédio das práticas operativas e da cirurgia, transformava-se numa prática predominantemente intrusiva. O próprio aprofundamento do conhecimento experimental propedêutico do organismo humano, da sua fábrica, aglutinava-se agora em torno da anatomia. E os anatomistas balbuciavam com crescente insistência o seu anseio de passar da dissecação do organismo morto à do organismo vivo. E o culminar dessa insistência fora sugerido pelo próprio Vesalio ao insinuar a prática da vivissecação do cérebro.(3)
E é desta metáfora e da sua derradeira compreensão que posso passar para o patamar superior da manipulação da gesta medicinae, para interrogar as cruciais questões a que, superados todos os ismos, a epistemologia tem que responder.
E é por isso que o meu ponto de partida não é mais um pós ismo qualquer, é ante. Nem pós-moderno, nem pós-estruturalista, nem pós-funcionalista, nem pós-marxista. É ante adversusque mdernitatem. Seja, é a prospecção dos itinerários, ou dos trilhos, pelos quais a progressão do conhecimento poderia ter enveredado no ponto exacto da ruptura com a tradição. Que horizontes lhe estavam virtualmente abertos?(4)
E devo advertir que não se trata meramente de uma reflexão epistemológica, trata-se também de uma reflexão ética e deontológica. Porque propõe a reunião da epistemologia com a ética.
E os ismos existem e impuseram-se nas nossa relações com o conhecimento e os seus itinerários, na presunção de as distinguir, no tempo e na espécie, porque o próprio itinerário do conhecimento é uma epopeia. Um ismo é uma operação narrativa de distinção, do género epopaico, que pretende, meramente, aglutinar em torno de um tópico pressupostamente doutrinário uma sucessão, na maior parte das vezes aleatória, de episódios de reflexão. Ou de prática disciplinar.
E não posso deixar de propor desde já uma reflexão. A arqueologia iniciou o seu itinerário centrífugo em relação à história, em direcção à autonomia, assumindo-se como uma ciência auxiliar da história. Súbita e brevemente, a arqueologia não era já uma, mas múltiplas ciências auxiliares da história, cada uma assumindo um âmbito específico de autonomia. Mas não passou muito tempo até que a arqueologia tratasse a história como uma ciência, cada vez mais longínqua, auxiliar da arqueologia.
Ora, é esta uma das razões porque invoco a história da medicina como paradigma. Afinal, não foi mais do que isto que se passou, no dealbar da modernidade, no que concerne à relação da medicina com as suas disciplinas ou práticas adjuvantes. Não tardaria que a cirurgia olhasse com sobranceria a medicina, não como prática ou doutrina adjuvante, mas mesmo como território inibidor de vigilância ideológica.





Notas


1. Devo desde já chamar a atenção para que, tomando por tópico a desconstrução de um discurso disciplinar, a minha intervenção epistemológica visa a reconstrução de um discurso disciplinar aglutinante, que, depois de proceder à dissecação anatómica dos discursos fragmentados, procedendo a uma sócio-psicanálise profunda dos contextos históricos que lhe serviram de suporte, consiga propor uma orientação ética para toda a actividade do conhecimento. Ver nota 4.

2. Manuel d Castro Nunes, 1992, Évora, No limiar de uma história da medicina em Portugal. A “medicina popular”. Contribuições para a identificação de um género. Manuel de Castro Nunes, 1993, Évora, O Capuchinho Vermelho. Laudas para um projecto de trabalhos em História da Medicina e da Cultura Médica em Portugal.
http://demedicare.blogspot.com/

3. O tema da vivissecação do cérebro, que passa subtilmente em claro nas canónicas abordagens à obra de Vesalio e do seu significado, poderia por si, como alegoria ou metáfora, ser objecto de um tratado. Em última análise denuncia a alucinação pela ânsia de conhecimento radical do próprio sujeito do conhecimento, no presumido tópico da sua sede. É o primeiro intuito de auto psicanálise. E tal como em toda a obra de Vesalio nem se compreende se a sua anatomia pretende consagrar a harmonia da fábrica, ou as circunstâncias da ocorrência da sua patologia.
Quando invoco aqui a matéria como metáfora tenho em mira a vivissecação do processo de conhecimento, intrometendo-me sobretudo nas fracturas, ou fissuras, que consigo determinar entre a teoria, ou doutrina, e a prática.



4. Ao utilizarmos a expressão ponto exacto, poderia utilizar episódio ou episódios singulares, tenho a consciência de que estou a intrometer aqui outro tópico da epistemologia recente da história, adjacente ao estruturalismo, a relação entre a longa e a breve duração. Ora, esta foi a matéria a partir da qual congeminei as minhas primeiras abordagens à história da medicina e posso concluir que me evadi da falsa equação pela porta de trás. Porque o que concluo é que a longa duração não passava de uma representação, um mero modelo de observação da realidade, que não era senão a sucessão de episódios ocorrentes sem qualquer nexo. O nexo fora constituído pela narrativa e os seus motivos eram aleatórios, pois eram determinados por sucessivos estratos de episódios narrativos, depósitos de detritos cuja análise e compreensão não era já tangível. E iniciara-se no estrato de contemporaneidade do episódio e fora a primeira operação de aglutinação de um episódio com outro episódio. Afinal, a longa duração tinha ela própria uma história e operava com os utensílios que, sucessivamente, em sucessivas estratigrafias narrativas, restavam ao historiador como vestígio ou indício da realidade a que procurava aceder.
Ao longo desta abordagem, não poderei deixar de reformular este tema.
No que aos ismos respeita, é suficiente neste ponto anunciar que este texto integrará um capítulo específico que dissecará o processo histórico de sucessão de ismos que dissimulam a singularidade de uma intervenção e a sua contextualização na efemeridade do momento em que foi suscitada. Qualquer ismo, como metanarrativa que representa a aglutinação de um discurso em torno de uma corrente contínua, ou mais ou menos contínua de pensamento e discurso, torna-se ele próprio numa operação retórica de representação.

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publicado às 07:20