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O futuro das qualificações profissionais.
Reiniciando um tópico que se quer superar pela porta de trás. Saindo pela da frente.
Como apelo para o retomar da abordagem deste tópico, que me recoloca na crista da onda, malogradamente, transcrevo aqui algumas intervenções em que num forum de intervenção pública respondi ao apelo de uma jovem desorientada.
Tenho acompanhado com certa assiduidade este tópico e outros relacionados com o futuro destino dos jovens que iniciam ou terminam a sua formação específica em Arqueologia e, olhando o futuro, sentem a ansiedade e o pânico de se defrontarem com um horizonte cada vez mais limitado de aplicação das suas qualificações.
Tenho 58 anos, vou em Agosto completar 59, tenho mais de vinte anos de ensino em vários contextos e níveis, sei o que é o dilema de um jovem face ao futuro, o dramático itinerário entre o sonho e o pânico, muitas vezes a precoce desilusão.
Talvez vos mace com o meu discurso de cota, mas vou-vos, em vários episódios, relatar a minha experiência e as minhas vivências, esperando, modestamente, que possam servir para vos transmitir algum alento.
O primeiro tema que vou abordar talvez vos surpreenda pois ninguém tem a coragem de o colocar como é, nua e cruamente.
Tenho um vasto investimento de trabalho no domínio da formação profissional. Durante os anos de 1993 e 1994, fui o responsável pedagógico, entre outros, do Curso Técnico de Profissionais de Turismo, na Ecola Bento de Jesus Caraça, em Évora, onde leccionei a Cadeira de Itinerários Turísticos e coordenei as Provas de Aptidão Profissional durante três anos. Instalei ainda o Curso Técnico de Profissionais de Design.
Assisti atónito à leviandade com que proliferavam os cursos profissionais em várias áreas, em que era visível que se alcançassem, a velocidade astronómica, os estreitos limites da procura por parte do mercado de trabalho. Encetei acirradas polémicas por propor que, tão importante como as transmissões de conteúdos técnico-científicos, era a formação dos jovens para a sua própria iniciativa empresarial e associativa, na procura dos contextos de uma aplicação eficaz das suas qualificações.
Coloca-se-nos ainda outra questão. A formação e qualificação dos cidadãos não pode continuar a ser ponderada, apenas, do ponto de vista tecnocrático, como um valor de mercado. É também um valor cultural e de cidadania. Uma qualificada formação na área da Arqueologia constitui um substrato cultural de exercício da cidadania.
O que virá a ser a Arqueologia no futuro? Já propus em outros contextos que, com os meios de detecção remota que podemos calcular que estarão disponíveis em breve, torna-se dispensável escavar, pois a própria jazida e o sítio se podem transformar no próprio museu, potenciando uma perspectiva cultural aprofundada de valorização do território.
Nem todos os arqueólogos terão necessariamente que escavar, nem a Arqueologia pode reduzir-se à escavação, tem que se tornar cada vez mais transdisciplinar e transcultural, invadir incisivamente e em profundidade a Antropologia Cultural, a História da Arte, a Estética, a Filosofia, etc.
Vós comungais os vossos dilemas com muitos outros jovens atraídos para outras áreas de formação, como os professores. Desde há cerca de vinte anos que as tendências estatísticas indicavam a desertificação demográfica na Europa e nós continuávamos a formar exércitos de professores.
Não posso deixar de vos propor, mesmo que tal choque muitos dos meus companheiros da minha geração, que os cursos de formação profissional de técnicos de arqueologia, bem como a proliferação de variantes nas Universidades, serviam mais os interesses dos docentes, que necessitavam de enquadramentos periféricos de aplicação profissional, do que os dos formandos e alunos, que todos sabiam que se iriam defrontar com sérios problemas de enquadramento profissional.
A minha maior angústia, quando leio algumas intervenções vossas, assenta no medo de que vos venhais a tornar meros reprodutores da mentalidade anquilosada da minha e de precedentes gerações, reproduzindo atitudes, procedimentos, inércias, soluções conjunturais dimanadas do interesse e necessidade imediata, que, a longo prazo, nos lançarão num beco sem saída.
Espero de vós o que vós não podeis já esperar de nós, a criatividade, o longo alcance de vista, a solidariedade humana, a superação do individualismo egoísta, o espírito de associação na procura de soluções colectivas e solidárias.
Para isso tendes que desalojar os velhos. O futuro é vosso e está nas vossas mãos.
É apenas uma primeira formulação de fundo das questões que vos atormentam. Em breve desenvolverei tópicos mais objectivos.
Espero que possa contribuir para que tomeis consciência da vossa força e capacidade para mudar a vida. Nós não o conseguimos fazer.
Um abraço a todos.
Manuel
De novo, da minha solitária condição de cota maçador, invocando as minhas memórias, venho colocar à vossa ponderação talvez inesperadas questões, que em breve espero que compreendais de que forma podem contribuir para que se oriente para novos caminhos a reflexão sobre os problemas que legitimamente vos inquietam.
A maior parte de vós viveu como estudante, eu como professor, os debates que envolveram o ambiente em que decorreu a última grande reforma do sistema educativo, nos inícios da década de 1990. Todos, de uma forma ou de outra, se entusiasmaram com a perspectiva de que tudo iria mudar e de que uma nova era se abria para a educação e para a cultura em Portugal.
Muito poucos todavia se aperceberam de que a reforma tinha fundamentalmente duas vertentes e de que um intenso debate se instituíu sobre qual delas devia ser predominante. Uma era a vertente curricular, que mobilizava sobretudo um segmento tecnocrata do sistema, outra era a vertente cultural e pedagógica, que mobilizava sobretudo os segmentos do sistema mais envolvidos com questões doutrinárias relacionadas com o papel da escola e da sua relação com os múltiplos segmentos da comunidade.
Estas duas posturas tiveram mesmo protagonistas bem individualizados, por um lado o Professor Frausto da Silva, que presidia à Comissão de Reforma do Sistema Educativo, representando a vertente curricular e tecnocrata, por outro o Professor Manuel Ferreira Patrício, então Presidente do Instituto de Inovação Educacional, representando o Projecto Escola Cultural. Importa deixar desde já claro que a minha adesão ao Projecto Escola Cultural não foi incondicional, mas crítico.
O texto final da Reforma viria a apresentar-se, aparentemente, como um compromisso entre as duas correntes de opinião, mas era desde logo óbvio que o que viria a prevalecer era a componente tecnocrática e curricular, em detrimento da componente cultural e pedagógica que propunha como linhas axiais o ensino individualizado, o estreitamento da relação entre os agentes e sujeitos do processo educativo, a reciprocidade na aprendizagem entre o professor e o aluno, o reconhecimento da multiplicidade cultural e da diversidade de objectivos da escola e da escolaridade. Todos estes componentes rapidamente se esbateram e, em breve, tínhamos de novo turmas com mais de vinte e cinco alunos, a prevalência de componentes curriculares como o Português e a Matemática, os professores comprometidos com objectivos curriculares de sucesso educativo, com programas, etc.
A escolaridade obrigatória subia sucessivamente de nível e reforçava-se a sua universalidade extensiva a cada vez mais ciclos.
Devo dizer que, em meu entender, uma escolaridade obrigatória assente num currículo universal é uma perversão da sociedade democrática.
Mas o que quero transmitir, no fundamental, é que, no pensamento dos promotores de uma reforma predominantemente curricular e tecnocrática, esta opção visava com maior eficácia objectivos como a preparação dos jovens para a vida activa, para a sua inserção no mercado de trabalho e para qualificação da competitividade da Nação no mundo global.
Vós sois hoje os testemunhos de que isso não correspondia à verdade.
E o que me proponho debater convosco é o porquê.
E perguntar-me-eis o que interessa isso à Arqueologia. Interessa para ponderar e superar a vossa condição de desemprego e de desorientação no que respeita ao futuro da aplicação das vossas qualificações.
Manuel
Caros amigos.
No seguimento da penúltima intervenção, vou prosseguir propondo-vos à reflexão um assunto cujo significado só muito recentemente se tornou compreensível.
Durante quase duas décadas, o curso superior com número de ingressos mais restrito foi o de medicina. Presumia-se que se tratava de uma medida cautelar, visando a qualificação do sistema de saúde e a dos seus agentes. Nesta base toda a gente o aceitou.
Quantos jovens, que potencialmente se poderiam ter afirmado como excelentes clínicos, foram atirados para a periferia do sistema, acabando por concluir cursos de enfermagem, de biologia, de farmácia, etc..
De súbito, sabemos que a actual Ministra da Saúde, reconhecendo a escassez de médicos que sustentassem com eficácia o sistema, anunciou o recrutamento de médicos no Brasil e em alguns países do Leste europeu. Não sabemos quais os requisitos que vão presidir a tais recrutamentos e se equivalem ao rigor dos que estabeleciam a restrição de acesso aos nossos jovens.
Mas nunca houve restrição de acesso aos cursos de História, Arqueologia, às vias de ensino de várias áreas disciplinares. Por isso não vamos necessitar de recrutar arqueólogos, professores, historiadores, etc., no exterior, vamos atirar com os licenciados e profissionais de arqueologia, os historiadores, os professores para as caixas dos supermercados ou para os call center dos grandes operadores de telecomunicações. Ou para os bancos dos jardins.
Bem, para além do mais, com o peso tutelar do Estado sobre a área do Património, à partida, só o aparelho do Estado, ou das empresas privadas a que o Estado adjudica trabalhos arqueológicos, ou certifica para os fazerem, podem integrar profissionalmente arqueólogos.
Mas não há dinheiro para a arqueologia nem para cultura no contexto da alegada crise.
Vai ser necessária muita tenacidade e muita criatividade para sair desta ratoeira.
Eu, por mim, estou com os jovens e confio neles.
Façai um esforço para não reproduzirdes no vosso quotidiano os vícios de atitude da minha e subsequente geração.
Pensai futuro. Pensai em novas dinâmicas para a aplicação das vossas qualificações. Isso só será possível quando a arqueologia deixar de ser um assunto hermético e exclusivo dos arqueólogos e for devolvida à comunidade.
Manuel

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publicado às 08:16