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O Engenho dos arqueólogos

por MCN, em 29.09.13

 

Dois artefactos, um de arqueologia, outro de engenho.

 

A ‘’peça do mês’’ seleccionada pelo Museu Nacional de Arqueologia não se entende se para Setembro ou para Outubro, mas apresentado por Vítor Gonçalves, é uma ‘’placa’’ em grés, similar às canónicas ‘’placas de xisto’’ dolménicas, recolhida na Anta do Espadanal, Estremoz, que entrou no acervo do Museu por aquisição de Manuel Heleno.


 Vou transcrever parte das considerações que faço, num relatório de apresentação, acerca de um alfinete de toucado com uma óbvia morfologia que o associam a similares no espectro da denominada ‘’cultura das taças capaniformes’’ e das grutas escavadas na rocha do Calcolítico Final da faixa atlântica ibérica.

 

‘’Uma nota especial merecem também os resultados dos ensaios incidentes sobre o artefacto V5, no que respeita à rubrica Observações. O artefacto procede presumidamente da região de Alcalar. Foi sujeito a ensaio de expectometria de fluorescência em diversos pontos, apresentando sempre resultados de 100% de composição aurífera. Apresenta contudo ao longo da vara algumas fissuras, resultantes de trabalho de amalgamação em forja ainda incipiente, dado tratar-se do artefacto cronologicamente mais remoto desta colecção, fim do Calcolítico ou início da Idade do Bronze. Este tipo de deficiências no trbalho oficinal de amálgama é de resto também sempre patente nos artefactos canônicos associados tradicionalmente aos primórdios da metalurgia o ouro no Sudoeste peninsular, como sejam as espirais de terminais espatuladas ou as arrecadas tipo Ermegeira, protótipos em Inventário do MNALV nºs 72, 73 e 88, cujas superfícies de acabamento apresentam também evidentes fissuras, provocadas pela sobreposição de rebarbas no processo de amálgama por martelagem em forja.

Nestas breves fissuras acumularam-se, como é óbvio, al longo de milhares de anos, depósitos sedimentares de diversificada natureza. Por norma, de natureza mineral, podendo contudo conter alguns óxidos metálicos, dependendo da natureza geológica da jazida. Os terrenos da região de procedência deste artefacto estão assinalados, do ponto de vista de constituição geológica, como os limites da mancha proveniente de depósitos devónicos e pérmicos que cobrem quase todo o Baixo Alentejo até à orla litoral algarvia, ricos em alguns metais, sobretudo ferro e cobre, manganês no Sudoeste alentejano e Noroeste algarvio.

De acordo com a observação referida, o artefacto apresenta, nas fissuras, depósitos de sedimentos de cor acinzentada, detectando-se a presença de ferro. Para sermos rigorosos, da própria coloração assinalada, deduzir-se-ia mais a presença de manganês do que de ferro, cuja classificação periódica é de resto contígua, 25 e 26. A distinção exigiria todavia uma rigorosa calibragem.

Deve todavia considerar-se este dado absolutamente irrelevante no que respeita à avaliação metalométrica da matéria prima do artefacto, pois apenas é registado em fissuras e, de resto, observável directamente macro e microscopicamente, mas relevante do ponto de vista da caracterização geológica do local de proveniência, admitindo contudo um largo espectro de hipóteses.’’

 

Fica então o leitor a saber que este artefacto andava, quando o pude observar pela primeira vez, referido a um achado na região de Alcalar. Esta referência nem mobilizou a minha atenção nem foi tida em conta durante a minha observação analítica intrínseca do artefacto. Seria depois também por mim referida, como mera constatação, rebatida se fosse o caso de absoluta ‘’impossibilidade’’.


Foi a presença de manganês incrustado nas minúsculas porosidades superficiais, típicas de uma massa aglutinada em forja, sem fusão, que me despertaram a atenção para coincidência com a composição genérica dos solos na região onde se alegava que decorrera o achado. Esse registo em nada contribuiria para a formulação do meu juízo acerca da genuinidade ou não do artefacto, nem para dar como adquirida a sua atribuição cultural, a saber:


’Alfinete de toucado em ouro, referenciável à tipologia dos similares em osso, achados correntes nos depósitos arqueológicos de sítios associados às grutas escavadas na rocha, hipogeus do Calcolítico Final, Palmela, Sesimbra, Cascais, Oeiras.’’

Mas havia algo, para lá deste breve registo, que era óbvio e parecia muito difícil de contestar. Este artefacto não poderia ter uma procedência exterior a Portugal Continental. Não era egípcio. Não era inca.

 

Bem, recentemente a empresa de arqueologia ERA SA tem divulgado fotos de um ‘’ídolo em mármore’’, um modelo muito corrente num amplo contesto de difusão da cultura megalítica, sobretudo no Sudoeste peninsular, de morfologia cilíndrica ou troncocónica, que foi recolhido no Complexo Arqueológico da Herdade do Perdigões, Reguengos de Monsaraz.


A foto é notável porque parece recolhida e querer documentar o momento da exumação do artefacto.

 

 

Todavia, se era esse o objectivo, para o qual só veríamos razão se o contexto e condições do achado fossem excepcionais, a imagem só levanta suspeitas. A ideia com que fico sempre que a observo, é a de que não faz sentido algum. O alvéolo em que o artefacto pousa e seria porventura o da sua deposição, em nada corresponde. O estrato, parece-me o descrito por Miguel Lago na página 50 de ‘’Povoado dos Perdigões (…) 1997’’, Miguel Lago e outros, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 1, Número 1. de 1998. Seria pois um estrato de deposição de escombros da demolição das estruturas no contexto dos trabalhos agrícolas descritos. Não se tratará de um contexto estratigráfico restritamente arqueológico.


É de todo legítimo suspeitar de que aquele ‘’ídolo’’ tenha aparecido ali e daquela forma. E de todo insondável a razão porque se terá tornado necessário apresentá-lo assim.

 

Deixo aqui uma breve reflexão. E regressarei ao tema.

 

O que distingue o artefacto de engenho de um objecto arqueológico?


Nenhum artefacto de engenho foi concebido ou realizado para deleite dos arqueólogos, nem para vir um dia a ser um objecto arqueológico.



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publicado às 18:34