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Scientific Investigation of Copies ... - Pesquisa de livros do Google

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publicado às 09:04


O tesouro de Baleizão. Um paradigma.
A fíbula Bragança. Um arquétipo
Na Primavera de 2007 o ambiente arqueológico e museológico espanhol, nomeadamente madrileno, congregou-se em torno da exposição El Heroe y el Monstro, estruturada pela presença de um arquétipo tópico da arte e joalharia ibérica, para o efeito cedida pelo British Museum. O contexto constituiu o pretexto para a reunião no Museu Arqueológico de Madrid de 83 referências de excelência na arte antiga pré-romana ibérica.
Se há referência que congrega em si toda a complexa problemática que respeita à creditação e atribuição de um objecto de arte, a Fíbula Bragança constituiu-se sem dúvida, em nosso entender, no arquétipo por excelência.
Na página seguinte deste blog, deixamos o link para uma das obras mais virulentas, mas também uma das que mais estruturada e sinteticamente aborda a questão da autenticação do objecto de arte em referência aos dispositivos que actualmente se encontram disponíveis para superar as metodologias tradicionais de análise, colocando de resto, várias questões que dizem respeito à análise do objecto arqueológico, ou passível de uma abordagem recorrente da arqueologia, sem contexto, Paul Craddock, 2007, Scientific investigation of copies, fakes and forgeries, Butterworth-Heinemann, London.
Sucessivamente exposta a polémicas e reponderações, centradas na análise da coerência estilística e da hermenêutica iconográfica, a confrontação dos dados adquiridos pelas análises laboratoriais em várias sedes independentes confirmou conclusivamente a sua autenticidade, no que respeita à sua atribuição cronológica, Século III AC.
O campo que resta em aberto é a sua presumida procedência, seja a Península Ibérica, mais propriamente o alto Guadalquivir. As análises estilísticas continuam a prevalecer na polémica estritamente respeitante a esta questão. A mobilização que a recente exibição em Madrid congregou em seu torno transformou-se num episódio difícil de superar, no que respeita à reclamação da comunidade científica e cultural espanhola, que assumiu o objecto como património da cultura peninsular, a mais insigne realização da ourivesaria, ou joalharia de tradição ibérico-tartéssica.
Pessoalmente, talvez em contra-corrente, colocaríamos algumas reservas em relação à linearidade dessa atribuição. Tais reservas seriam, no contexto das questões que estamos a abordar, irrelevantes.
Ora, o mais substancial que pretendemos pôr em relevo relativamente a este objecto e ao seu valor apelativo, é justamente a sua história recente. O objecto foi pressupostamente adquirido por Fernando de Saxe-Coburgo, Príncipe Consorte e cônjuge da Rainha Dona Maria II, e nada se sabe acerca da procedência. Tem depois, a partir de 1941, data do falecimento da Princesa de Bragança nos Estados Unidos da América, um itinerário de mercado bem documentado, que se conclui com a aquisição pelo Museu Britânico.
Sujeito a consecutivos episódios de rejeição, firmados na hipótese de pressupostas incoerências estilísticas, foi conclusivamente creditado através da mobilização de dispositivos laboratoriais inquestionáveis.
Como objecto de arte, é sem dúvida das mais apelativas realizações de ourivesaria, ou joalharia, da antiguidade, ombreando com as mais consagradas realizações helénicas e etruscas.
Pode a arqueologia rejeitá-lo como objecto do seu alcance disciplinar, ou recorrente do seu alcance disciplinar, com a alegação do argumento de que se trata de um objecto sem referências a um contexto arqueológico de exumação?

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publicado às 14:42

O arqueómano

por MCN, em 11.04.09
O arqueómano

Declaração de princípios



Muita ambiguidade se tem manifestado na interpretação deste pristino estatuto que reclamo, não só para mim mas para todos os que a ele quiserem aderir. Como é óbvio, cada um pode ser arqueómano à sua maneira. Mas esta é a minha, exaustivamente ponderada. Só a interpretou de certas formas quem o quis. Ou talvez eu próprio não tenha sido exaustivamente explícito. Compete-me, nesse caso, reconhecer que partiu de mim a sobranceria. Trata-se então de a corrigir.

O arqueómano não adere à utilização de dispositivos de detecção remota com o fim de facilitar a exumação de materiais arqueológicos. Os dispositivos de detecção remota, hoje existem muitos e de múltipla natureza, devem de resto constituir-se em auxiliares que dispensem a intervenção de exumação, quer de materiais, quer de estruturas.
Partindo dos mesmos pressupostos, o arqueómano não adere a escavações sugeridas por necessidades efémeras e de circunstância. Entram nesta categoria as chamadas escavações de emergência. Em alternativa, o arqueómano sugere a imediata suspensão de todas as intervenções no terreno, com vista à reformulação e reforço de um coerente plano nacional de escavações, que se deve transformar no eixo da intervenção arqueológica, nesta área.
O arqueómano entende que as tarefas que exigem actualmente mais aplicação e reflexão são as que respeitam à sociabilização da matéria arqueológica, a promoção de uma cultura arqueológica no seio da comunidade e o estudo aprofundado dos materiais e sua contextualização resultantes de anos de intervenção no terreno precariamente programadas.
O arqueómano reconhece a qualquer cidadão, independentemente do seu estatuto, o direito de questionar os procedimentos técnicos aplicados pela arqueologia em qualquer circunstância, tanto no que respeita à intervenção sobre materiais, como sobre estruturas, e imputa ao arqueólogo o dever de colocar com toda a abertura à disposição da comunidade os meios que permitam avaliar a oportunidade de qualquer alegação. O último argumento que um arqueómano reconhece é a invocação de um estatuto.
O arqueómano entende que a reformulação dos dispositivos legislativos se tornou num dos mais urgentes meios para prosseguir estes objectivos.
O arqueómano rejeita que a arqueologia se transforme num instrumento persecutório indiscriminado que possa inibir a espontânea fruição da matéria arqueológica por parte da comunidade. O arqueómano é solidário com o arqueólogo na promoção de medidas que preservem e curem do património arqueológico e cultural, promovendo mais uma profunda cultura arqueológica do que a gratuita produção de dispositivos penais.
Dados estes pressupostos, o arqueómano propõe o princípio de que nenhuma intervenção sobre o património arqueológico e cultural pode ser vedada a qualquer cidadão, senão aquelas de cuja ausência de requisitos técnicos explícitos resulte dano ou dolo sobre o património. É esse o domínio exclusivo do arqueólogo, como profissional institucionalmente reconhecido.
Este é o programa do arqueómano para o presente e o futuro. Ele resulta também de uma exaustiva avaliação dos desvarios do passado e sabe que muitos deles são irreversíveis. O arqueómano é solidário com o arqueólogo na procura de soluções operacionais, racionais e comunitariamente solidárias para reverter as consequências dos desvarios e incúrias do passado.
Este princípio aplica-se à recuperação nas melhores circunstâncias do património sem rasto sonegado à fruição da comunidade.
O arqueómano e a arqueomania anseiam pela circunstância em que seja oportuno cruzar a sua intervenção com o arqueólogo e a arqueologia.

Para quem não o soubesse, isto é um arqueómano.

Manuel de Castro Nunes

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publicado às 06:24

Arqueomania versus Arqueolgia

por MCN, em 10.04.09
Em 1999, o presidente de uma fundação dedicada ao estudo e preservação do património histórico e arqueológico, pediu-me que lhe apresentasse um plano de trabalho para abordar vários tópicos da história e da arqueologia, renitentes referentes da sua região de origem. Não se tratava de um estudioso ou investigador, senão de um simples apaixonado pela história e pela arqueologia. A sua paixão era endémica e, se eu lhe pedisse para a explicar, não o conseguiria. Levei pouco tempo para concluir que eu próprio nunca compreenderia a minha.
Ora, o prólogo da apresentação dos resultados do trabalho que viria a realizar continua a ser a mais espontânea expressão de uma ideia que tento transmitir há muito.
O itinerário da minha relação com a arqueologia teve raiz arqueómana e a ela regressa. Mal será de um arqueólogo que queira reduzir a sua relação com a arqueologia a uma actividade profissional, ou a um exercício disciplinar. Será como um médico sem vocação.
E só pode ser no domínio desta paixão e deste afecto e quando a ele regressa, vertido para a linguagem de uma partilha sem prosélitos limites, que o trabalho do arqueólogo adquire o seu sentido.
Como apaixonado também da história da medicina e da cultura médica, tendo como referência o paradigma Vesaliano, temo mesmo mergulhar na arqueopatia: “e o que não diria ainda da vivissecação do cérebro”, confessou o médico.






Introdução




Limina Aritivm, ou seja a morada ou o território demarcado, porventura pelo fio da espada, dos arites, que não sabemos bem quem hajam sido, ou se foram sequer. A história é um jogo, em que a poética e a razão se degladiam, o sonho e a vigília mutuamente se dissipam e se confundem. (*)
Este programa de trabalho percorreu ele próprio um sinuoso itinerário e pejado de precalços, para se associar, até no destino, ao núcleo do seu tema, que era à partida, mau grado os pretextos, os caminhos e as veredas com o seu espectro interminável de hipóteses de sentidos e de origens. Caminhos para nenhures, em demanda de coisa nenhuma, para o Sol Nascente e para o Ocaso, ou acaso, sepultados na poeira do abandono e da memória, por onde, no vai e vem da vida e dos milénios, calcorrearam o mundo pastores e marinheiros perdidos, bufarinheiros alucinados e deuses despojados, cujos espectros ainda nos surpreendem por um instante breve, desolados no poial de uma fonte seca, saltitando de pedra em pedra sobre as passadeiras do vau de uma ribeira fresca, ou perscrutando lonjuras num cruzamento sem horizontes. A história faz-se na peugada dos espectros que se nos insinuam.
Estruturou-se em torno de uma ideia, em torno de tópicos tão vagos que até parecia que não partira, para lado nenhum, do horizonte remoto da mirambolância. Depois, a ideia foi ganhando referências a registos objectivos. Mas continuou o seu trilho incerto e foi encontrando, em cada objecto concreto com que foi povoando o seu horizonte longínquo, novos pretextos e razões para prosseguir, orientado aos quatro quadrantes. Acreditamos que os sonhos são premonitórios e os objectos reais já foram imaginados.
Em 1999, a Fundação para o Estudo e Preservação do Património Histórico-Arqueológico propôs-me que me debruçasse sobre um elenco de tópicos que sintetizavam séculos de invocações com que se foi esboçando a memória colectiva e a identidade do cidadão de Abrantes, morador do Tejo, do aquém e além Tejo, nas fronteiras dos míticos reinos de Tartessos e da Atlântida, vizinho de Moron, de Aritivm, de Tvbvcci, dos cinetes, dos cónios e dos sefes, que não sabia já bem de onde havia espreitado de longe o reboliço fumegante do acampamento legionário de Decimvs Ivnivs Brvtvs espraiado pela lezíria. Alcantilado nas escarpas sobranceiras, com o comboio a sulcar pachorrento as falésias, o seu olhar perdia-se perscrutando na superfície metálica do rio explorando cada curva, cada reaparecer serpenteante no horizonte, à procura de uma vela enfonada de qualquer barca romana ou cartaginesa, de um grupo de homens vergados ao jugo da sirga, em cuja ponta qualquer batel emergiria da bruma.
Durante alguns meses, não soubemos, nem nos interessou o que fazer. Simplesmente perdemo-nos pelas ravinas ou pelas planuras intermináveis, subindo e descendo os cursos pedegrosos de ribeiras e de rios, trepando aos cerros, atolámo-nos na lama e nas areias dos sapais, atrás de mitos, de divindades ocultas, que residiam nas pedras, nas árvores, no próprio cantar dos rouxinóis. A arqueologia é também uma bucólica, a atribuição de uma história à natureza. Aqui registava-se um caminho, ali uma ponte, acolá os escombros de uma presença milenar, uma anta, ou uma pedra simples e vadia a desafiar a imaginação locubrativa.
Nos fins de Dezembro, tínhamos um objecto para estruturar e dar consistência a esta itinerância renitente. O Tejo... e os caminhos, de novo. Basta andar por aí e ser-se vadio, para compreender que os caminhos fizeram a História.



(*)Parte-se aqui de um pressuposto, ou hipótese, talvez polémica, mas coerente nos meios requeridos para a formulação. Aritivm afigura-se em tudo como sendo o genitivo plural de um nome latino de tema consonântico ou semi-consonântico, i, referindo então uma condição de posse sobre um território ou um estabelecimento urbano.
Aritivm, como tópico da geografia humana antiga, aparece referido em dois contextos. Numa lâmina de bronze citada até à exaustão, publicada por Jorge Cardoso , Agiológio Lusitano, III, Lisboa 1666, que apareceu junto de Alvega em 1659, nas bordas de uma ribeira geralmente identificada com a Ribeira da Lampreia, que vai buscar as suas águas às imediações de Longomel, aparecem nomeados os Aritienses e Aritivm Vetvs. O monumento, geralmente designado juramento dos Arícios, é um estranho vínculo de fidelidade ao Imperador Calígula, com um cunho marcadamente corporativo e militar, que parece corresponder à integração dos Arícios na estrutura censitiva romana, constituindo porventura a Cohors Aritivm.
Também, ao traçar os dois itinerários principais de viagem de Vlissipo para Emerita Avgvsta, o itinerário de Antonino Pio, que adiante analisaremos, nomeia, no iter XIV, Aritivm Praetorivm entre Vlissipo e Abelterivm.
Como aconteceu com a Igaeditania, morada dos Igaeditani ou Igaeditanes, que num processo de etimologia pleonástica originou o nome de Igaeditanienses, senão podemos ainda presumir a pristina fórmula Igaedites com morada na Igaeditania, é de presumir que Aritivm, em tudo configurado como genitivo de Arites, designando a sua morada, tenha originado, quando as relações entre os nomes poderia ser já remota ou difícil de apreender pelos romanos, o nome Aritienses para designar os Arites. Ainda se poderia especular se os romanos não chamaram Aritienses aos habitantes de um oppidvm ou de um território que se apossou do nome Aritivm do território dos Arites, para distinguir os novos povoadores, ou colonizadores (aricienses por morarem no território Aritivm) dos veteres (antigos). E por isso se continuava a falar de um Aritivm Vetvs, designando o território, ou o oppidvm dos Arites. Mas a instituição que ficou vinculada ao conjunto dos Arites, Aritivm Praetorivm, como sede de uma Cohors Aritivm (Cohorte dos Arícios), manteve o pristino e imediato genitivo. Uns seriam então os Aritienses, habitantes de um oppidvm Aritivm, outros os Arites, senhores de um prévio territorivm ou dominivm Aritivm. Podemos presumir então um povo ou grupo étnico que se nomeou ou foi nomeado Arites, cultores de Arés porventura, que senhoreou um vasto território na área em que o nosso estudo se vai instalar, que trataremos ainda, no âmbito deste trabalho, de identificar e demarcar.

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publicado às 09:14

O Tesouro de Baleizão. Um Paradigma.

Este texto é extracto de uma sequência de intervenções no Forum Arqueologia, uma instituição cibernáutica de estatuto por definir. Foi programado na tentativa de o qualifcar, sonegando-o a insondáveis utilizações desvirtuadas, ou talvez não. Logo se verá.



Caros amigos.

Isto não é uma resposta a Vítor Roma, embora, de forma imediata, tenha sido suscitado por ele. Na verdade, se lerem os tópicos que tenho desenvolvido fora desta polémica, logo deduzirão que, em breve, levantaria estas questões. De resto, iniciei a sua abordagem no meu blog Archaeomania.
Fá-lo-ei à minha maneira, espero que tenham a paciência para seguir o meu raciocínio.

Se eu deixar a porta da minha casa aberta e alguém se introduzir nela para cometer dolo, correrei sempre o risco de que alguém alegue, ou suspeite, de que o fiz deliberadamente, por alguma incógnita razão. Este raciocínio é paradigmático da ficção policial, Agatha Chistie ou Connan Doyle.
E será este o tópico axial desta intervenção, deveria já ter chegado há muito a altura em que se protegesse o património cultural público curando dele e não denunciando atentados irremediáveis, que, em grande parte dos casos, ficam sem autoria atribuída. E curar dele não é encarcerá-lo sob vigilância remota de sofisticados equipamentos, é promover e suscitar a sua partilha pela comunidade, gerando afectos, contextos de fruição múltipla, integrá-lo activamente no quotidiano das gentes, que seriam os seus melhores guardiães.
Sei que não estou a produzir doutrina inovadora, O que reclamo é uma profunda ponderação sobre as formas concretas de a transferir para a prática.
Ora, esta é uma questão urgente para programar um futuro que não pode ser remoto. E que poderia constituir magníficos contextos de integração profissional de muitos jovens qualificados em várias áreas de intervenção sobre o património cultural, nomeadamente arqueológico. Um arqueólogo não tem necessariamente que escavar, haverá cada vez menos escavações para tantos arqueólogos.
Malogradamente, esta questão que nos obriga a ponderar com urgência um futuro próximo, transporta o peso dos episódios do passado. O que se perdeu jamais se recupera. No que respeita à arqueologia, um objecto que perdeu a sua referência ao contexto de que foi exumado jamais o recuperará. Posso ilustrá-lo com a minha experiência, com que não vos vou importunar agora.
Ora, a questão que coloco é: deixa por isso de ser um objecto arqueológico ou matéria arqueológica, ou seja, de suportar um discurso disciplinar arqueológico?
Em minha opinião não; e este é um debate que de forma nenhuma se encontra esgotado.
Suponhamos que o Vítor Roma tem razão, quando alega que parte dos objectos que integram o tesouro de Baleizão estiveram na sua loja em Estremoz em 2000, 2001 ou 2002, tanto faz?
Tal viria apenas consolidar suspeitas já estafadas. Quando digo estafadas não pretendo afirmar que não tenham fundamento ou partam mesmo de certezas, mas que está estafado um certo discurso acerca do que adviria para a validade intrínseca dos objectos a confirmação, já não a suspeita, de que se trata de objectos cujo contexto é já impossível de reestabelecer. Se tal confirmação suportaria a alegação de que, assim sendo, os objectos não interessam à arqueologia.
Mas a colocação desta questão obriga-nos a colocar de imediato outra. Se os objectos não procedem de um achado de Baleizão porque estavam em Estremoz em 2001, então, se admitirmos que a verdade atravessa transversalmente as alegações de Vítor Roma, os objectos proviriam da colecção reunida pelos seus pai e avô, eram conhecidas há mais de meio século. Partindo destas premissas começaríamos a entrar no domínio do absurdo e não haveria melhor ilustração acerca das histórias que se podem acumular sobre um objecto arqueológico descontextualizado do que este episódio.
A partir de então, pegamos numa trincha, varremos do objecto toda esta poeira e detritos que a história recente sobre ele acumulou e olhamos para ele já desempoeirado, atentos à informação intrínseca que nos transmite.
Vou fazer, com todo o respeito que me merece, um pequeno comentário ao texto de Raquel Vilaça para que Vítor Roma remete. Já conheço o texto desde que foi emitido, mas não sei se o Vítor Roma domina de facto a língua inglesa, uma vez que dele não consigo extrair as ilacções que dele quer tirar. Eu estou actualmente a produzir um trabalho de fundo sobre a ourivesaria primitiva da faixa atlântica peninsular e tentarei comentar, em sereno ambiente de partilha académica e científica, várias questões com a Professora Isabel Vilaça, sobretudo o limite do alcance em que podemos superar os métodos analíticos comparativos tradicionais, mobilizando dispositivos e procedimentos de manipulação laboratorial hoje em dia inquestionáveis.
Mas esse comentário não interessa para este local de abordagem, senão após resultar em conclusões consistentes.
É contudo de notar que Raquel Vilaça e Maria da Conceição Lopes são explícitas em lamentar o facto de muitos objectos se terem irremediavelmente perdido com base na rejeição por não aparecerem referidos ao seu contexto de achamento. Uma salutar disposição.
Vou fazer uma pausa neste tema, para iniciar a abordagem de outro.
Neste Fórum já se desenvolveu um debate acerca do uso de detectores de metais, da sua interdição, da legitimidade que suporta essa interdição e do seu alcance e a que circunstâncias se aplica.
O registo que gostaria para já de fazer é o de que nenhum dos arqueólogos de referência, e há vários a acompanhar este Fórum, desceu das suas sobranceiras tamancas para intervir nesse debate. E tenho a certeza de que o debate se teria tornado muito mais interessante se tal se verificasse. E não desonra qualquer arqueólogo intervir neste ou em qualquer outro fórum onde o seu saber se sociabilize e contribua para transferir a investigação arqueológica para o domínio da cultura arqueológica.
Ora, é por isso que eu digo que não sou arqueólogo mas arqueómano e venho da rua.
A arqueologia não é só investigação, nem uma área de salvaguarda de património em que intervêm exclusivamente profissionais arqueólogos, é cultura no sentido amplo de intervenção e partilha por parte da comunidade.
Como é que o Vítor Roma e outros fingiram durante tempo que não era mais do que isto que eu queria transmitir?
Estão então traçadas as linhas orientadoras da intervenção que quero prosseguir. Amanhã.

Um abraço para todos.


Caros amigos.

Prosseguindo.

Vou iniciar esta segunda parte da minha intervenção, retomando o tema com que rematara a anterior.
O meu amigo Professor Carlos Fabião participou em 2006, no fórum Al Madam, então extensão da homónima revista editada pelo Centro de Arqueologia de Almada, visivelmente associado, o Fórum, à comunidade detectorista, num dos primeiros debates públicos estruturados em ambiente cibernáutico acerca do detectorismo.
Por outro lado, tenho tentado mobilizar vários arqueólogos para que se inicie um sereno e profundo debate de que possa sair, ou não, uma consistente proposta de reformulação do corpus legislativo que define, regulamenta e atribui sede à actividade arqueológica, bem como define, até ao estrato derradeiro da propriedade, posse, uso e domínio, o património cultural em geral e arqueológico em particular.
Ao enunciar esta proposta parto sempre do princípio de que o corpus legislativo em vigor constitui um inerte, salpicado de ambiguidades e incoerências, e, por essa razão, não tem, no fundamental, aplicabilidade eficaz. Numa outra intervenção, quando atingirmos a maturidade das questões que programo equacionar, documentarei exaustivamente esta alegação.
Mas, em verdade, nem necessitaria. Porque, de facto, perdoe-me o caro amigo Carlos Fabião esta referência pessoal, a sua intervenção nesse debate acaba por redundar nesta conclusão. E, por mais apelos que faça à punição dos infractores, trespassa o seu discurso a amargura de a actual Lei não conseguir realizar os seus anseios, que, perdoe-me uma vez mais, se transferem do universo da arqueologia para o da psiquiatria. O Carlos Fabião sabe que eu sou assim, bárbaro, bruto e teimoso como um burro, mas leal. Se me responder na mesma moeda, só merecerá um fraterno abraço.
Porque, na minha óptica, que será a de qualquer legislador humanista, uma lei penal deve ser formulada tendo em mira o objectivo de não ter que ser aplicada, ou só o ser em circunstâncias extremas. O dispositivo legislativo envolvente e que a enquadra deve curar da realização desse objectivo.
Vivemos hoje numa sociedade verberativa, em que cada um espera sempre ver nas “garras da justiça” os seus circunstantes, como forma de esconjurar os seus próprios tormentos face à incerteza do futuro e à revolta contra o presente. Esta questão é do profundo foro da sociologia e da psicologia colectiva, mas gerou o perturbante clima da denúncia leviana ou torpe, da difamação impune, da calúnia sem rosto, de outros apelos porventura mais perturbantes.
Como já o disse antes, “culpa mea” ou “mea culpa” no que me compete assumi-la.
Mas, retomando, mal seria de uma lei que fosse produzida meramente para que alguém ficasse à espera que alguém a violasse para lhe cair em cima. O mínimo que se poderia dizer era que se tratava de uma lei persecutória, sem qualquer outro fim. E talvez ineficaz, se ninguém tivesse meios ou paciência para se postar de vigia no local e circunstância onde viria a ser violada.
E esta, associada a outras, é uma questão crucial.

Peço desculpa aos seguidores deste, mas uma nova e inusitada intervenção colateral de Vítor Roma, obriga-me a suspender esta aqui. Mas prosseguirei. Amanhã.

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publicado às 13:05